quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Chico Sabóia e o Abacatal.

Num domingo destes, nos anos 90, não havendo muita disposição para ir longe com a bicicleta, saí a andar pelo município de Ananindeua. Saindo da Cidade Nova, passei pelo centro da cidade, atravessei a BR, e segui pras bandas do Aurá.
Tendo atravessado o tal Aurá, e ainda não tendo decidido  qual  caminho  conhecer,  encontrei  um  senhor  de  idade  avançada,  a pé,  carregando um saco  nas costas. 
Cumprimentei-o e ele logo puxou conversa comigo.  Disse que estava num boteco bebendo com mais um companheiro, e, ao resolver ir para casa, o companheiro insistiu em continuar bebendo, sendo que ele decidiu ir sozinho.
Lembro  claramente  do  seu   nome  (Chico Sabóia).  Ele  tinha  uma  conversa  muito  interessante.  Fui  seguindo  devagar  com  ele,  ofereci  carona  na  bicicleta,  mas ele  não  aceitou,  sendo que  permitiu  que  eu  carregasse o  saco  na  garupa  da bicicleta.  O jeito  dele falar  era   interessante,  tanto  que  resolvi  ir  com  ele  só  para  ouvir.
Ele contou  que  aquela  estrada  ia  para  o  Abacatal, lugar onde  ele morava.  No caminho  ia  mostrando  e  contando,  “fulano morou  ali, trabalhava  assim,  teve um caso com fulana,” e assim   ia  contando  fatos  da  vida  de  vários  moradores  da  redondeza.
Contou  também  que  aproximadamente  40  homens,  entre   os  quais ele se  incluía,  muitos  anos  atrás,  abriram  aquela  estrada sem  patrola,  sem   trator,  sem motosserra:  tudo  “no braço”.  Cortaram  grandes  árvores  que  precisavam  de  cinco homens  para  abraçar, usando  serra  manual  e  machado (algumas deram mais de um dia inteiro de trabalho para  serem tiradas).  Não  lembro  bem,  parece  que  foi  no  tempo  do  Gov. Magalhães Barata.  Esse  trabalho  de  abrir  a  estrada  de  aproximadamente  10 km  durou  mais  de  um  ano.

No  meio  do  caminho  ele  mostrou  um  ramal  que  ia  para  o  Aurá.   Ele  não  estava  bêbado...  Explicou  que ,  lá  onde  eu  julgava  ser o  Aurá,  era  a “invasão  do  Aurá”, localidade  com  poucos anos de existência,  mas  o  Aurá  verdadeiro  era  aquele  outro  no  rumo  do  ramal  que  eu  ainda  não  percorri. 
Depois  daquela  encruzilhada,  onde  houvesse uma casa  na beira  da  estrada,  de  lá  saía  alguém  de  encontro  a  ele,  fosse  um  homem,  uma  mulher,  ou crianças,  todos  pedindo  “a  bênção”,  até  quando  chegamos  no tal  Abacatal,  um  pequeno  povoado onde  havia  um  campo de futebol ,  de  onde não havia  saída  para  mais  nenhum  lado.  Chico Sabóia  me  disse  que  noventa  por cento  dos  moradores  dali  eram  seus  descendentes. 
Ele disse que de lá não havia mais caminho para nenhum  lado,    porque  a estrada havia sido aberta para exploração de uma pedreira.
Nunca  mais  andei por  lá,  mas  aquele  homem  diferente  ficou  na  minha  lembrança.

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