Num domingo destes, nos anos 90, não havendo muita disposição para ir longe com a bicicleta, saí a andar pelo município de Ananindeua. Saindo da Cidade Nova, passei pelo centro da cidade, atravessei a BR, e segui pras bandas do Aurá.
Tendo atravessado o tal Aurá, e ainda não tendo decidido qual caminho conhecer, encontrei um senhor de idade avançada, a pé, carregando um saco nas costas.
Cumprimentei-o e ele logo puxou conversa comigo. Disse que estava num boteco bebendo com mais um companheiro, e, ao resolver ir para casa, o companheiro insistiu em continuar bebendo, sendo que ele decidiu ir sozinho.
Lembro claramente do seu nome (Chico Sabóia). Ele tinha uma conversa muito interessante. Fui seguindo devagar com ele, ofereci carona na bicicleta, mas ele não aceitou, sendo que permitiu que eu carregasse o saco na garupa da bicicleta. O jeito dele falar era interessante, tanto que resolvi ir com ele só para ouvir.
Ele contou que aquela estrada ia para o Abacatal, lugar onde ele morava. No caminho ia mostrando e contando, “fulano morou ali, trabalhava assim, teve um caso com fulana,” e assim ia contando fatos da vida de vários moradores da redondeza.
Contou também que aproximadamente 40 homens, entre os quais ele se incluía, muitos anos atrás, abriram aquela estrada sem patrola, sem trator, sem motosserra: tudo “no braço”. Cortaram grandes árvores que precisavam de cinco homens para abraçar, usando serra manual e machado (algumas deram mais de um dia inteiro de trabalho para serem tiradas). Não lembro bem, parece que foi no tempo do Gov. Magalhães Barata. Esse trabalho de abrir a estrada de aproximadamente 10 km durou mais de um ano.
No meio do caminho ele mostrou um ramal que ia para o Aurá. Ele não estava bêbado... Explicou que , lá onde eu julgava ser o Aurá, era a “invasão do Aurá”, localidade com poucos anos de existência, mas o Aurá verdadeiro era aquele outro no rumo do ramal que eu ainda não percorri.
Depois daquela encruzilhada, onde houvesse uma casa na beira da estrada, de lá saía alguém de encontro a ele, fosse um homem, uma mulher, ou crianças, todos pedindo “a bênção”, até quando chegamos no tal Abacatal, um pequeno povoado onde havia um campo de futebol , de onde não havia saída para mais nenhum lado. Chico Sabóia me disse que noventa por cento dos moradores dali eram seus descendentes.
Ele disse que de lá não havia mais caminho para nenhum lado, porque a estrada havia sido aberta para exploração de uma pedreira.
Nunca mais andei por lá, mas aquele homem diferente ficou na minha lembrança.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
O tomador de batidas.
Quando eu morei em Porto Alegre, eu gostava de ir ao centro da cidade, na Praça 15 (15 de Novembro), tomar batida. Nas várias lanchonetes havia, já cortados, pedaços de banana, mamão, abacate, maçã, e também outros ingredientes em potes, como aveia, neston, etc.
O meu costume era pedir 6 copos, com todos os ingredientes misturados e ainda ovos crus com casca e tudo. Aquilo para mim era um lanche normal...
Também na feira, ali próximo, na Rua Voluntários da Pátria, eu merendava bananas. As bananas só eram encontradas embaladas de 2 em 2 kg. Assim sendo, minha merenda era 2 kg de banana. Quando não tinha banana, eu me contentava em comer 2 kg de tomate....
Então, por ocasião da minha viagem de bicicleta ao Pará, estava eu dando umas voltas na cidade do Rio de Janeiro. Na Av. Presidente Vargas, próximo à esquina com a Rio Branco, entrei numa lanchonete e vi lá na parede que tinha batida. Fui ao caixa e comprei 4 copos.
Chegando ao balcão, e não vendo nenhuma fruta para fazer batida, nem banana, nem nada, perguntei qual tipo de batida havia para escolher. E ouvi, espantado, maracujá, laranja, e outras frutas estranhas que nunca vi em nenhuma batida. Pedi os 4 copos de maracujá. Imaginava que ia vir misturado com alguma farinha para engrossar, mas veio bem fininho, como um suco. O atendente ainda perguntou se eu ia tomar um só copo e voltar mais tarde, ao que eu respondi “pode trazer os 4, pois sou acostumado a tomar 6”... Quando tomei o primeiro gole, tinha um gosto estranho de cachaça. Como já estava pago, tomei tudo (os 4 copos). Me senti tão mal que saí da lanchonete me apoiando na parede. Não tive coragem de sair andando com a bicicleta. Eu estava zonzo. Sentei na calçada, no chão, até melhorar um pouco. Lembro que passou alguém vendendo “não-sei-o-quê” e comprei. Após comer, melhorei um pouco, subi na bicicleta e pedalei vigorosamente até me sentir “normal”.
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